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Publicada em 01/10/2026 às 00:00 | Atualizada em 30/09/2026 às 17:04

Roteirista Janaina Tokitaka comenta adaptação de De Volta aos 15 e fala sobre cinebiografias de Daiane dos Santos e Clara Nunes

A autora concedeu entrevista exclusiva ao ESTRELANDO

Bárbara More

Divulgação - VR Editora

Janaina Tokitaka é escritora de livro infantojuenis e roteirista de produções audiovisuais. Inclusive, ela foi responsável pela adaptação para a Netflix da série De Volta aos 15, que tem Maisa Silva e Camila Queiroz no papel da protagonista Anita e foi baseada nos livros de mesmo nome de Bruna Vieira. Matando a curiosidade que muitos fãs possuem, ela falou em entrevista exclusiva ao ESTRELANDO sobre o processo de transformar uma obra literárea em episódios de uma produção.

- No De Volta, eu acho que foi um trabalho incrível e eu ter sido e ser autora de livro me ajudou muito, começa ela declarando. 

Ela descreve que toda adaptação passa por um processo de escolher quais elementos da história serão mantidos e quais precisarão ser alterados para que a trama passe dos papéis para as telas. No caso da série, a criação do roteiro envolveu convesas com Bruna:

- Quando eu falei com a Bruna, que esteve sempre muito presente com a gente, ela sabia que muitas coisas iam ter que mudar, porque é assim, não tem como não ser, ela até queria também. E outras coisas a gente tinha muito interesse em manter as mesmas, porque a gente já sabia que tinha um público que gostava e funcionava. E eu acho que toda adaptação é um pouco isso, é você fazer essa dança entre o que fica e o que vai. E aí eu também consegui explicar muito para ela como é que funciona, o porquê de cada decisão também. Para não ser uma coisa arbitrária também, de a gente tirou porque a gente quis. Não, nunca era isso. Então, acho que no caso de Volta, eu tive que fazer esse papel um pouco de mediadora, mas também ficar muito do lado do roteiro. 

Janaína completa explicando a importância de ter um olhar externo ao do criador dos livros: 

- Quando é uma obra minha, e eu já, enfim, comecei a pensar algumas adaptações de obras minhas, é sempre mais difícil, porque eu estou muito dentro de tudo. Então, às vezes até é bom ter alguém de fora para dizer: Olha, você está muito apegada, sabe? A gente precisa mudar e está tudo bem. E essas outras coisas vão ficar, enfim.

A autora ainda deixa uma reflexão:

- Às vezes você fala: Ah, eu duvido que ele vai conseguir fazer tão bom, vai estragar a minha experiência do livro. Mas, às vezes, a gente se surpreende. Acho que cada adaptação para cinema traz um pouco do momento da sua época e tudo meio que funciona, e nada é o livro. Então também as coisas não competem, né? Não é que uma coisa vai querer entrar no lugar da outra, mas todas têm seu lugar.

Ainda sobre o assunto, ela discorre sobre como não é possível agradar a todos com a adaptação de um livro, já que cada leitos teve uma experiência pessoal com a obra, mas que isso não deve ser considerado um impasse no processo criativo: 

- Nunca vai ter todo mundo feliz. Isso é uma coisa que é uma verdade universal para tudo, para as relações humanas, para qualquer coisa. Eu acho que tem uma coisa que a gente está vivendo agora, nesse tempo, e que talvez outras pessoas não tivessem pensado por isso, que é a demanda do público muito presente. Então, quando a gente vai escrever, a gente já pensa: Meu Deus, as pessoas vão xingar no Twitter, vai ter hate no TikTok, etc. Mas a verdade é que a gente não pode se deixar paralisar também por isso, porque senão a gente não faz nada de bom. 

E completa: 

- A gente viu aí o caso da Odisseia, por exemplo, tem gente que odiou, tem gente que amou, mas tem uma coisa muito legal que é as pessoas estão falando muito sobre um clássico, e isso está gerando uma curiosidade sobre um livro importantíssimo. E muita gente que acho que jamais se interessaria vai se interessar porque tem um blockbuster falando sobre ele. Então, acho que as adaptações, mesmo que não sejam ideais, ou que você pessoalmente não goste, elas têm um papel amplo de formação também, de gerar interesse no livro. Essa coisa do vai e vem entre livro, tela, etc, é uma coisa que me interessa, porque eu não sou de demonizar o uso de tela. Claro que, eu sou mãe de uma menina de 10 anos, então, eu me preocupo com formação leitora, tenho formação na área, etc. Sei que é muito nocivo passar muitas horas em tela, mas eu nunca achei que proibir tela era uma coisa legal, porque eu acho que tem muitas obras incríveis em tela, e é só uma questão de você fazer ali um pratinho equilibrado.

Questionada se, no processo de adaptação, é mais desafiador escolher o que fica de fora ou criar novos elementos que funcionem melhor para a tela, ela explica que se trata de uma ação conjunta realizada por toda uma equipe de roteiristas: 

- Eu acho que mais difícil é você conciliar essas coisas. Escrever roteiro é um pouco encaixar a pecinha de Lego. Isso a gente sabe, é uma escrita muito engenharia, então, para que tudo faça sentido, não fique parecendo um Frankenstein, metade de uma coisa, metade de outra, tudo precisa encaixar, e aí você precisa fazer isso ao mesmo tempo. Então tá bom, isso aqui fica, e isso vai gerar uma resposta ou um buraco, mas isso aqui sai. Então, a nova peça tem que encaixar na antiga, é um Tetris. E tudo isso é feito um pouco ao mesmo tempo, como se você estivesse modelando, e você vai tirando e colocando outras coisas. Audiovisual não se faz sozinho, o roteiro é feito por uma equipe. Eu muitas vezes sou chefe de sala, então respondo pelo roteiro, me responsabilizo e etc, como cabeça de equipe, mas eu tenho três pessoas, quatro pessoas trabalhando junto comigo, então tudo isso é feito com a ajuda de muitas pessoas, direção, depois, produção, canal, enfim, isso no geral ajuda.

Mila no Multiverso

Janaina Tokitaka também é roteirista da série Mila no Multiverso, da Disney, ao lado de Cássio Koshikumo. A produção teen nacional de ficcção científica leva a protagonista a visitar universos paralelos. Muito feliz com a trabalho, ela conta: 

- Fazer o Mila foi muito legal, acho que tem muito de TV cultura no Mila e uma mensagem de diversidade também que eu acho bem importante. Eu também sou criadora do Mila para além de roteirista, então eu e o Cássio, que é outro criador e também roteirista, a gente conseguiu fazer uma concepção de universo que tinha que conversar com o universo Disney, que é uma grande responsabilidade também. A gente sabe que a Disney tem o peso que tem e pensar tudo, desde como ia ser o device que ia levar ela para o multiverso, o pólen, se gente ia optar por um universo fechadoou aberto, as regras todas da ficção científica, como é que funcionava a viagem para o multiverso. E está tudo muito bem amarradinho, acho que tudo faz sentido. 

Cinebiografias

Janaina Tokitaka atualmente está com projetos aguardando lançamento. Ao lado de Flávia Vieira, ela assina o roteiro da cinebiografia A Menina que Voa, que conta a história da ginasta Daiane dos Santos, que será interpretada por Duda Santos. Além disso, as duas também trabalham juntas como roteiristas do filme sobre Clara Nunes, que contará com Camila Pitanga interpretando a cantora.

Na conversa, Janaina falou sobre o processo de transformar histórias reais em produções cinematográficas e quais os cuidados e desafios na hora de construir esses roteiros. 

-  Eu acho que o difícil nas biografias é sempre você fazer o recorte, porque dá vontade de contar tudo. E a gente sempre quer ser muito respeitosa também com a realidade. São vidas de pessoas reais, mas uma vida não é uma história. Eu acho que esse é o principal desafio. Qual é a história que eu quero contar diante de tudo que a Daiane fez? E qual é esse começo, meio e fim? Qual é o recorte? O que é mais interessante? Muita coisa vai ficar de fora e tudo bem. Mas acho que isso é o mais difícil, é escolher o recorte.

Em seguida, descreve o sentimento de fazer parte de projetos que entregarão ao público histórias de mulheres tão potentes e que tiveram tanto impacto no público brasileiro, em seus respectivos campos de atuação: esporte e música. A roteirista ressalta a importância de mostrar aos espectadores como Daiane e Clara são uma grande inspiração:

-  Eu acho que tanto a Daiane quanto a Clara são mulheres que a gente conhece, talvez, os feitos, mas poderia conhecer muito mais. Porque elas têm uma importância tão gigantesca, que eu acho que trazer luz para essas trajetórias é muito bom para a gente, principalmente para nós mulheres, porque eu acho que sem essas referências a gente não tem onde se moldar. Eu acho que elas podem ser exemplos para meninas, para muitas mulheres. Porque a gente está falando muito de trajetórias profissionais aqui. E eu acho que tem aquela impressão muitas vezes de que a pessoa nasceu pronta, era o destino, e não, é tudo fruto de muito trabalho, e tem um beabá, um passo a passo ali que eu acho que realmente pessoas podem olhar e falar: Bom, então tá, eu posso fazer isso também. Ou: Isso é parecido comigo, vou insistir, é difícil para todo mundo, eu tenho a ver com elas... Então, eu acho que são dois filmes que têm que inspirar a plateia.

Janaina explica que a ideia é mostrar as mulheres que existem por trás dos ícones, já que para além de lendas da ginástica e da indústria musical nacional, elas também tem toda uma trajetória pessoal e uma vida longe dos holofotes. 

-  Eu acho que o biografado não pode ser só uma estrela. A gente precisa entender as falhas, a gente precisa entender os momentos de quebra, a gente precisa entender a humanidade deles. Porque quando é tudo muito grande, você fica até com um certo receio de fazer isso, mas a verdade é que a gente não se conecta com histórias de pessoas que não são humanas, a gente precisa olhar e falar: São pessoas como nós. E aí também está o interesse do público, de ver um pouquinho por trás da cortina, quem ela era ali no off, quem ela era em casa, quem ela era com a família, quem ela era com o namorado, será que ela pensou em desistir e tal? Então, tudo isso é um pouco obrigatório colocar. Qualquer protagonista da ficção seria assim também.

Cora Curiosa 

O mais novo lançamento literário da autora é Cora Curiosa, livro infantojuvenil que combina humor, investigação e suspense, publicado pela VR Editora e ilustrado por Arthur Ortega. Na história, que é narrada em primeira pessoa e com recursos de diário, Cora é uma menina prestes a completar 10 anos que recebe uma missão inusitada: encontrar sozinha o próprio presente de aniversário, escondido pelos pais, dois espiões profissionais. Ao longo de sete dias, a personagem reúne pistas, resolve enigmas e investiga situações inesperadas que a levam a questionar não apenas o desaparecimento do presente, mas também a própria história e os segredos da família.

Ao falar sobre o principal charme do livro, que é instigar as crianças a trabalhar a curiosidade através de uma protagonista feminina, a autora confessa que é apaixonada neste perfil de personagem e deixa uma reflexão: 

-  Adoro quando a protagonista é curiosa, porque eu acho que isso é um motor narrativo muito bom. Se ela quer saber alguma coisa, a gente, espectador ou leitor, também quer saber. Então é uma ferramenta mesmo que funciona para enganchar o leitor ou espectador até o final. E eu acho que isso para as mulheres é ainda mais legal, né? Eu adoro quando uma mulher curiosa, por exemplo, descobre o mundo através da curiosidade, amplia o que ela já sabe, porque ela é curiosa. Eu odeio quando elas são punidas, aquela coisa meio curiosidade matou o gato. Eu sou contra, eu acho que a curiosidade salvou o gato.

Janína fala sobre como uma das fases mais gostosas da infância é a curiosidade, a pergunta, a busca por conhecimento. Inclusive, os adultos tem muito o que aprender com essa característica. 

- Eu acho que a criança curiosa é uma criança saudável. Eu sempre falo isso. [...] Eu acho que a gente também deveria se manter mais assim. Tenho a impressão que a gente, a partir de determinado momento, começa a aceitar as coisas. Acho que talvez por um cansaço. E se você se esforçar um pouquinho mais, você vai ver que tem muita coisa mal contada, ou contada pela metade no mundo. Ou então que você poderia simplesmente descobrir muito mais sobre coisas cotidianas. É o olhar para as coisas que acho que torna a nossa vida interessante, assim. E a gente pode aprender com as crianças, pensando assim.

O livro chega com uma estética bastante lúdica, com a presença de ilustrações em aquarela inspiradas na cultura pop japonesa. Ao falar sobre a construção das imagens de Cora Curiosa, que utiliza muitos recursos visuais para contar a história, Janaina fala sobre o trabalho de Arthur Ortega: 

-  O Arthur, eu acho que ele pegou o texto e ele ampliou muito, que é o que uma boa imagem faz. É quase animação. Uma amiga minha me falou quetem cara de animação do estúdio Ghibli. Ficou muito bonitinha essa coisa da casa e tal. E eu acho que elas também despertam curiosidade. Então, quando você olha aquela casinha, você quer saber o que tem naquele canto, o que tem no telhado, o que é aquilo mesmo que tem numa estante. E eu gosto muito de fichas de personagens, porque você se sente um pouco mais próximo deles. Dá também uma sensação de papelaria, que eu acho que é muito legal para as crianças. 

E completa:

- Esse livro, ele tem um intuito meio claro, eu queria trazer boa literatura, literatura instigante, literatura que falasse sobre coisas legais para uma faixa etária que está quase abandonando a leitura. O que acontece? As crianças pequenininhas, elas têm esse hábito de leitura e muita literatura disponível quando você vai numa livraria ou os clubes de leitura, porque as famílias estão ali. Elas sentam, tem a hora da leitura, tem os livros da escola e tal. Quando elas ficam mais autônomas, com esses sete, oito anos de idade, é a coisa da competição pela tela também, é fácil de largar. Então, eu queria fazer um livro que fosse difícil de largar. E eu acho que as ilustrações, elas ajudam nisso também, porque é super sedutor, é bonito, é um objeto legal, é próximo de outras referências culturais pop de anime e mangá que elas têm e tal. Então, tudo isso para dizer que eu estou muito feliz com as ilustrações do Arthur.


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Roteirista Janaina Tokitaka comenta adaptação de <i>De Volta aos 15</i> e fala sobre cinebiografias de Daiane dos Santos e Clara Nunes

Roteirista Janaina Tokitaka comenta adaptação de De Volta aos 15 e fala sobre cinebiografias de Daiane dos Santos e Clara Nunes

30/Set/

Janaina Tokitaka é escritora de livro infantojuenis e roteirista de produções audiovisuais. Inclusive, ela foi responsável pela adaptação para a Netflix da série De Volta aos 15, que tem Maisa Silva e Camila Queiroz no papel da protagonista Anita e foi baseada nos livros de mesmo nome de Bruna Vieira. Matando a curiosidade que muitos fãs possuem, ela falou em entrevista exclusiva ao ESTRELANDO sobre o processo de transformar uma obra literárea em episódios de uma produção.

- No De Volta, eu acho que foi um trabalho incrível e eu ter sido e ser autora de livro me ajudou muito, começa ela declarando. 

Ela descreve que toda adaptação passa por um processo de escolher quais elementos da história serão mantidos e quais precisarão ser alterados para que a trama passe dos papéis para as telas. No caso da série, a criação do roteiro envolveu convesas com Bruna:

- Quando eu falei com a Bruna, que esteve sempre muito presente com a gente, ela sabia que muitas coisas iam ter que mudar, porque é assim, não tem como não ser, ela até queria também. E outras coisas a gente tinha muito interesse em manter as mesmas, porque a gente já sabia que tinha um público que gostava e funcionava. E eu acho que toda adaptação é um pouco isso, é você fazer essa dança entre o que fica e o que vai. E aí eu também consegui explicar muito para ela como é que funciona, o porquê de cada decisão também. Para não ser uma coisa arbitrária também, de a gente tirou porque a gente quis. Não, nunca era isso. Então, acho que no caso de Volta, eu tive que fazer esse papel um pouco de mediadora, mas também ficar muito do lado do roteiro. 

Janaína completa explicando a importância de ter um olhar externo ao do criador dos livros: 

- Quando é uma obra minha, e eu já, enfim, comecei a pensar algumas adaptações de obras minhas, é sempre mais difícil, porque eu estou muito dentro de tudo. Então, às vezes até é bom ter alguém de fora para dizer: Olha, você está muito apegada, sabe? A gente precisa mudar e está tudo bem. E essas outras coisas vão ficar, enfim.

A autora ainda deixa uma reflexão:

- Às vezes você fala: Ah, eu duvido que ele vai conseguir fazer tão bom, vai estragar a minha experiência do livro. Mas, às vezes, a gente se surpreende. Acho que cada adaptação para cinema traz um pouco do momento da sua época e tudo meio que funciona, e nada é o livro. Então também as coisas não competem, né? Não é que uma coisa vai querer entrar no lugar da outra, mas todas têm seu lugar.

Ainda sobre o assunto, ela discorre sobre como não é possível agradar a todos com a adaptação de um livro, já que cada leitos teve uma experiência pessoal com a obra, mas que isso não deve ser considerado um impasse no processo criativo: 

- Nunca vai ter todo mundo feliz. Isso é uma coisa que é uma verdade universal para tudo, para as relações humanas, para qualquer coisa. Eu acho que tem uma coisa que a gente está vivendo agora, nesse tempo, e que talvez outras pessoas não tivessem pensado por isso, que é a demanda do público muito presente. Então, quando a gente vai escrever, a gente já pensa: Meu Deus, as pessoas vão xingar no Twitter, vai ter hate no TikTok, etc. Mas a verdade é que a gente não pode se deixar paralisar também por isso, porque senão a gente não faz nada de bom. 

E completa: 

- A gente viu aí o caso da Odisseia, por exemplo, tem gente que odiou, tem gente que amou, mas tem uma coisa muito legal que é as pessoas estão falando muito sobre um clássico, e isso está gerando uma curiosidade sobre um livro importantíssimo. E muita gente que acho que jamais se interessaria vai se interessar porque tem um blockbuster falando sobre ele. Então, acho que as adaptações, mesmo que não sejam ideais, ou que você pessoalmente não goste, elas têm um papel amplo de formação também, de gerar interesse no livro. Essa coisa do vai e vem entre livro, tela, etc, é uma coisa que me interessa, porque eu não sou de demonizar o uso de tela. Claro que, eu sou mãe de uma menina de 10 anos, então, eu me preocupo com formação leitora, tenho formação na área, etc. Sei que é muito nocivo passar muitas horas em tela, mas eu nunca achei que proibir tela era uma coisa legal, porque eu acho que tem muitas obras incríveis em tela, e é só uma questão de você fazer ali um pratinho equilibrado.

Questionada se, no processo de adaptação, é mais desafiador escolher o que fica de fora ou criar novos elementos que funcionem melhor para a tela, ela explica que se trata de uma ação conjunta realizada por toda uma equipe de roteiristas: 

- Eu acho que mais difícil é você conciliar essas coisas. Escrever roteiro é um pouco encaixar a pecinha de Lego. Isso a gente sabe, é uma escrita muito engenharia, então, para que tudo faça sentido, não fique parecendo um Frankenstein, metade de uma coisa, metade de outra, tudo precisa encaixar, e aí você precisa fazer isso ao mesmo tempo. Então tá bom, isso aqui fica, e isso vai gerar uma resposta ou um buraco, mas isso aqui sai. Então, a nova peça tem que encaixar na antiga, é um Tetris. E tudo isso é feito um pouco ao mesmo tempo, como se você estivesse modelando, e você vai tirando e colocando outras coisas. Audiovisual não se faz sozinho, o roteiro é feito por uma equipe. Eu muitas vezes sou chefe de sala, então respondo pelo roteiro, me responsabilizo e etc, como cabeça de equipe, mas eu tenho três pessoas, quatro pessoas trabalhando junto comigo, então tudo isso é feito com a ajuda de muitas pessoas, direção, depois, produção, canal, enfim, isso no geral ajuda.

Mila no Multiverso

Janaina Tokitaka também é roteirista da série Mila no Multiverso, da Disney, ao lado de Cássio Koshikumo. A produção teen nacional de ficcção científica leva a protagonista a visitar universos paralelos. Muito feliz com a trabalho, ela conta: 

- Fazer o Mila foi muito legal, acho que tem muito de TV cultura no Mila e uma mensagem de diversidade também que eu acho bem importante. Eu também sou criadora do Mila para além de roteirista, então eu e o Cássio, que é outro criador e também roteirista, a gente conseguiu fazer uma concepção de universo que tinha que conversar com o universo Disney, que é uma grande responsabilidade também. A gente sabe que a Disney tem o peso que tem e pensar tudo, desde como ia ser o device que ia levar ela para o multiverso, o pólen, se gente ia optar por um universo fechadoou aberto, as regras todas da ficção científica, como é que funcionava a viagem para o multiverso. E está tudo muito bem amarradinho, acho que tudo faz sentido. 

Cinebiografias

Janaina Tokitaka atualmente está com projetos aguardando lançamento. Ao lado de Flávia Vieira, ela assina o roteiro da cinebiografia A Menina que Voa, que conta a história da ginasta Daiane dos Santos, que será interpretada por Duda Santos. Além disso, as duas também trabalham juntas como roteiristas do filme sobre Clara Nunes, que contará com Camila Pitanga interpretando a cantora.

Na conversa, Janaina falou sobre o processo de transformar histórias reais em produções cinematográficas e quais os cuidados e desafios na hora de construir esses roteiros. 

-  Eu acho que o difícil nas biografias é sempre você fazer o recorte, porque dá vontade de contar tudo. E a gente sempre quer ser muito respeitosa também com a realidade. São vidas de pessoas reais, mas uma vida não é uma história. Eu acho que esse é o principal desafio. Qual é a história que eu quero contar diante de tudo que a Daiane fez? E qual é esse começo, meio e fim? Qual é o recorte? O que é mais interessante? Muita coisa vai ficar de fora e tudo bem. Mas acho que isso é o mais difícil, é escolher o recorte.

Em seguida, descreve o sentimento de fazer parte de projetos que entregarão ao público histórias de mulheres tão potentes e que tiveram tanto impacto no público brasileiro, em seus respectivos campos de atuação: esporte e música. A roteirista ressalta a importância de mostrar aos espectadores como Daiane e Clara são uma grande inspiração:

-  Eu acho que tanto a Daiane quanto a Clara são mulheres que a gente conhece, talvez, os feitos, mas poderia conhecer muito mais. Porque elas têm uma importância tão gigantesca, que eu acho que trazer luz para essas trajetórias é muito bom para a gente, principalmente para nós mulheres, porque eu acho que sem essas referências a gente não tem onde se moldar. Eu acho que elas podem ser exemplos para meninas, para muitas mulheres. Porque a gente está falando muito de trajetórias profissionais aqui. E eu acho que tem aquela impressão muitas vezes de que a pessoa nasceu pronta, era o destino, e não, é tudo fruto de muito trabalho, e tem um beabá, um passo a passo ali que eu acho que realmente pessoas podem olhar e falar: Bom, então tá, eu posso fazer isso também. Ou: Isso é parecido comigo, vou insistir, é difícil para todo mundo, eu tenho a ver com elas... Então, eu acho que são dois filmes que têm que inspirar a plateia.

Janaina explica que a ideia é mostrar as mulheres que existem por trás dos ícones, já que para além de lendas da ginástica e da indústria musical nacional, elas também tem toda uma trajetória pessoal e uma vida longe dos holofotes. 

-  Eu acho que o biografado não pode ser só uma estrela. A gente precisa entender as falhas, a gente precisa entender os momentos de quebra, a gente precisa entender a humanidade deles. Porque quando é tudo muito grande, você fica até com um certo receio de fazer isso, mas a verdade é que a gente não se conecta com histórias de pessoas que não são humanas, a gente precisa olhar e falar: São pessoas como nós. E aí também está o interesse do público, de ver um pouquinho por trás da cortina, quem ela era ali no off, quem ela era em casa, quem ela era com a família, quem ela era com o namorado, será que ela pensou em desistir e tal? Então, tudo isso é um pouco obrigatório colocar. Qualquer protagonista da ficção seria assim também.

Cora Curiosa 

O mais novo lançamento literário da autora é Cora Curiosa, livro infantojuvenil que combina humor, investigação e suspense, publicado pela VR Editora e ilustrado por Arthur Ortega. Na história, que é narrada em primeira pessoa e com recursos de diário, Cora é uma menina prestes a completar 10 anos que recebe uma missão inusitada: encontrar sozinha o próprio presente de aniversário, escondido pelos pais, dois espiões profissionais. Ao longo de sete dias, a personagem reúne pistas, resolve enigmas e investiga situações inesperadas que a levam a questionar não apenas o desaparecimento do presente, mas também a própria história e os segredos da família.

Ao falar sobre o principal charme do livro, que é instigar as crianças a trabalhar a curiosidade através de uma protagonista feminina, a autora confessa que é apaixonada neste perfil de personagem e deixa uma reflexão: 

-  Adoro quando a protagonista é curiosa, porque eu acho que isso é um motor narrativo muito bom. Se ela quer saber alguma coisa, a gente, espectador ou leitor, também quer saber. Então é uma ferramenta mesmo que funciona para enganchar o leitor ou espectador até o final. E eu acho que isso para as mulheres é ainda mais legal, né? Eu adoro quando uma mulher curiosa, por exemplo, descobre o mundo através da curiosidade, amplia o que ela já sabe, porque ela é curiosa. Eu odeio quando elas são punidas, aquela coisa meio curiosidade matou o gato. Eu sou contra, eu acho que a curiosidade salvou o gato.

Janína fala sobre como uma das fases mais gostosas da infância é a curiosidade, a pergunta, a busca por conhecimento. Inclusive, os adultos tem muito o que aprender com essa característica. 

- Eu acho que a criança curiosa é uma criança saudável. Eu sempre falo isso. [...] Eu acho que a gente também deveria se manter mais assim. Tenho a impressão que a gente, a partir de determinado momento, começa a aceitar as coisas. Acho que talvez por um cansaço. E se você se esforçar um pouquinho mais, você vai ver que tem muita coisa mal contada, ou contada pela metade no mundo. Ou então que você poderia simplesmente descobrir muito mais sobre coisas cotidianas. É o olhar para as coisas que acho que torna a nossa vida interessante, assim. E a gente pode aprender com as crianças, pensando assim.

O livro chega com uma estética bastante lúdica, com a presença de ilustrações em aquarela inspiradas na cultura pop japonesa. Ao falar sobre a construção das imagens de Cora Curiosa, que utiliza muitos recursos visuais para contar a história, Janaina fala sobre o trabalho de Arthur Ortega: 

-  O Arthur, eu acho que ele pegou o texto e ele ampliou muito, que é o que uma boa imagem faz. É quase animação. Uma amiga minha me falou quetem cara de animação do estúdio Ghibli. Ficou muito bonitinha essa coisa da casa e tal. E eu acho que elas também despertam curiosidade. Então, quando você olha aquela casinha, você quer saber o que tem naquele canto, o que tem no telhado, o que é aquilo mesmo que tem numa estante. E eu gosto muito de fichas de personagens, porque você se sente um pouco mais próximo deles. Dá também uma sensação de papelaria, que eu acho que é muito legal para as crianças. 

E completa:

- Esse livro, ele tem um intuito meio claro, eu queria trazer boa literatura, literatura instigante, literatura que falasse sobre coisas legais para uma faixa etária que está quase abandonando a leitura. O que acontece? As crianças pequenininhas, elas têm esse hábito de leitura e muita literatura disponível quando você vai numa livraria ou os clubes de leitura, porque as famílias estão ali. Elas sentam, tem a hora da leitura, tem os livros da escola e tal. Quando elas ficam mais autônomas, com esses sete, oito anos de idade, é a coisa da competição pela tela também, é fácil de largar. Então, eu queria fazer um livro que fosse difícil de largar. E eu acho que as ilustrações, elas ajudam nisso também, porque é super sedutor, é bonito, é um objeto legal, é próximo de outras referências culturais pop de anime e mangá que elas têm e tal. Então, tudo isso para dizer que eu estou muito feliz com as ilustrações do Arthur.