Paula Fernandes relembra início da carreira no sertanejo: Era tudo moldado para os homens
27/Ago/
Paula Fernandes está se preparando para voltar a Barretos. Após dez anos, a cantora retornará à Festa do Peão com uma participação dupla: estará na abertura das Montarias nesta quinta-feira, dia 27, e fará o show principal na sexta-feira, dia 28, no Palco Amanhecer, onde também celebrará seus 41 anos de idade.
Em entrevista recente à BBC News, Paula falou sobre seu retorno e revelou a decisão de entrar no palco montada em um cavalo, enquanto canta Ave Maria:
- Eu ganhei a vida com Ave Maria. Colocou comida na minha mesa desde que me entendo por gente. Sempre cantei em abertura de rodeio, e Ave Maria é um momento importante. É quando os peões fazem uma oração de proteção, porque [a montaria] é um esporte arriscado. Às vezes eu entrava a pé, às vezes faziam um coração de fogo ao meu redor. Isso é uma memória afetiva tão boa, porque colocava comida na minha mesa e prazeroso, poder orar pelos peões.
Em outro trecho da entrevista, ela foi questionada sobre o movimento feminejo e se considera uma das precursoras. Segundo Paula, outros nomes femininos já existiam no sertanejo, mas ela se sentia sozinha na época.
- Eu fui uma das, mas antes existiram — e existem ainda — Sula Miranda, Roberta Miranda, as irmãs Galvão, as Marcianas. Naquela época era mais difícil do que quando eu aconteci, mas sinto orgulho de estar contribuindo na pavimentação de uma estrada difícil contra o preconceito contra as mulheres na música, ainda mais em um meio dominado por duplas masculinas.
Segundo Paula, algo que ela não consegue esquecer é o olhar de espanto que recebia ao chegar aos lugares. A cantora afirmou que até mesmo seus pedidos eram questionados.
- Completamente. Não consigo descrever o olhar de espanto de quando eu chegava, porque ser uma dama nesse meio é diferente. Existia um espanto, uma curiosidade, e ao mesmo tempo uma rejeição. Quem é essa mulher? Por que ela pediu um banheiro no camarim? Por que pediu um espelho?. Era tudo moldado para homens, que chegam de botina, trocam de roupa em qualquer lugar, colocam uma camisa xadrez e está tudo certo, fazem xixi em qualquer lugar. Acaba que a gente precisa de mais cuidado. A gente pede um palco sem buracos, porque uso salto, e isso são necessidades femininas, não luxo. Eu sentia essa resistência. Mas fulano veio aqui ontem e não pediu isso. Mas eu sou uma dama! A coisa foi evoluindo, e isso se tornou uma prática mais comum, receber uma menina e saber que é diferente.
Paula também relembrou as críticas que recebia e confessou que, por ser mais quieta e não se envolver com ninguém do meio, acabou dando margem para notícias de que teria possíveis affairs, mas garantiu que nunca teve.
- Me deram cinco namorados em uma semana. Aí a frase era: 'boazinha, mas passa o rodo, né?'. E eu solteira, quietinha. Sempre tive a conduta de ser muito correta e ir de casa para o trabalho, do trabalho para casa. No meio eu não namorei praticamente ninguém, então de certa forma isso incomodava um pouco. 'Como uma artista não é namoradeira? Ela tem que ser alguma coisa, então vamos dar um rótulo para ela.' E eu sempre fui uma máquina de trabalho.Mas faz parte: quando a gente está em cima do palco, existem muitos tipos de olhares. Mesmo diante disso tudo, fui muito feliz. E hoje sou mais ainda.
Sobre suas músicas e a decisão de fazer versões em português de sucessos internacionais, Paula garantiu que pretende continuar explorando esse seu lado.
- Eu tinha aversão a isso. Para mim, era um crime pegar uma música tão perfeita e adaptar, mas acabei me tornando uma grande versionista. É um desafio foda, uma Adele liberar uma canção para eu fazer em português, então mudei minha forma de pensar. Pretendo, sim, continuar fazendo, e acaba caindo no meu colo.
Paula também afirmou que não costuma utilizar inteligência artificial em suas músicas:
- Me nego. Como criadora, é inadmissível usar uma vírgula do Chat. É um crime contra minha natureza, porque sou uma criadora desde que me entendo por gente. A IA, sendo bem usada, é maravilhoso, mas para essa parte eu me questiono o que vai ser dos compositores. Como eles vão provar que aquilo saiu deles? Seja da cabeça, seja do coração. Para mim, sempre foi do coração. Quando componho com sentimento, sinto que toco as pessoas, então é inconcebível, porque não vai tocar do mesmo jeito. Para emocionar, tem que ser humano, vulnerável, profundo. E IA não tem profundidade, entende? Outra coisa: tem que haver uma legalização de direitos autorais, porque fica muito fácil, colocar 'quero compor uma música igual à da Paula Fernandes'. O que é meu é meu. Se você não gostar, é minha culpa; se gostar, é minha conquista.
Por fim, Paula analisou o que mudou em sua forma de compor desde 2011 até os dias atuais:
- Minha vivência mudou. Eu era uma menina anônima, sem grana, que não tinha nem onde morar direito, não tinha o que comer direito, passava todo tipo de necessidade, e fui retratando, à medida que o tempo foi passando, minhas vivências. A gente passa a ter uma forma diferente de se expressar, mas a essência não muda.
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