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Publicada em 23/05/2024 às 00:00 | Atualizada em 24/05/2024 às 15:32

Dev Patel desvia dos clichês de Hollywood em Fúria Primitiva, mas não entrega o sonhado ineditismo

O ator acaba de fazer a estreia como diretor em filme recheado de ação - e, diferente dos recentes, se aprofunda na trama

Clara Rocha

Divulgação

Não é de hoje que o cinema de ação vem procurando se sustentar no ritmo frenético das cenas agressivas e, sobretudo, nas histórias de vingança. A cada nova produção do gênero, percebemos que tudo parece precisar ser mais rápido e violento, pecando na profundidade de suas tramas. É exatamente desse o quanto mais simples, melhor que Dev Patel tenta fugir ao realizar seu début como diretor.

Em entrevista ao site norte-americano Deadline Hollywood, o ator conhecido por seus papéis em Quem Quer Ser um Milionário? e Skins afirma que esse tipo de filme teria sido abusado pelo sistema. Nas palavras do britânico, seu desejo é dar ao gênero uma alma real, um trauma real, uma dor real, além de infundir um pouco de cultura nisso. Foi com esse olhar que Patel decidiu produzir, roteirizar, dirigir e atuar em Fúria Primitiva.

No entanto, ao embarcar no projeto que, inicialmente, sairia na Netflix, acabou enfrentando alguns embates. Apesar de ter sido gravado, pouco se falou do filme durante suas primeiras etapas de produção, marcadas pelo período da pandemia de Covid-19 e, posteriormente, pelas greves dos atores e roteiristas. Até que surgiu a notícia milagrosa: o produtor Jordan Peele, aclamado por suas produções de terror, como Corra!, Nós e Não! Não Olhe!, iria se envolver no projeto. Com isso, ao invés de sair no streaming, Fúria Primitiva passa a ter um lançamento nos cinemas.

Marcando uma virada interessante na carreira de Patel, o longa-metragem se ambienta em uma cidade fictícia da Índia. Nela, acompanhamos o drama do protagonista Kid, vivido pelo próprio Dev Patel. Caracterizado como um homem amargurado que ganha a vida em lutas clandestinas, Kid interpreta o personagem Monkey Man em suas brigas. Inspirado na lenda hindu de Hanuman, um ser místico com cabeça de macaco muito associado a virtudes como heroísmo e altruísmo, o ator e diretor é capaz de, logo de início, apresentar ao espectador algo que vai muito além de apenas um filme de ação.

Mesmo com a profissão de lutador, fica clara que esse não é exatamente seu plano de carreira. Kid têm o objetivo de se vingar daqueles que mataram sua mãe e incendiaram a vila em que vivia quando criança. Colocando sua revanche em prática, vemos Patel se infiltrar em uma boate comandada pela máfia local, onde seus alvos principais são o chefe de polícia Rana, interpretado por Sikandar Kher, e o líder espiritual Baba Shakti, na pele do ator Makrand Deshpande.

Se desenvolvendo em algo que beira aos esquemas dos clássicos jogos onde é preciso passar de etapa por etapa, onde mais chefões são introduzidos, combatidos e vencidos, o filme é dividido em dois grandes capítulos. Na medida que o jovem consegue o emprego em um exclusivo clube de elite para fazer o trabalho que ninguém quer, Kid convence a chefe Queenie, vivida por Ashwini Kalsekar, que é uma pessoa confiável. Conseguindo se infiltrar cada vez mais no meio, ainda faz amizade com outro funcionário, Alphonso, interpretado por Pitobash, que se torna um ótimo alívio cômico.

É precisando recalcular a rota de sua vingança que o protogonista recebe apoio espiritual de um grupo da comunidade religiosa Hijra, pessoas que adoram a Deusa Bahuchara Mata. Ali, reúne forças para terminar o que começou. Esse é o respiro do filme, um de seus bons acertos, onde os roteiristas preparam o terreno para a batalha final - outro ponto alto da trama.

Cumprindo a promessa de preencher um filme de pancadaria com críticas a injustiças sociais, corrupção política, fanatismo religioso, preconceito contra as minorias, e muito mais, Fúria Primitiva é capaz de surpreender o público com o quão bem se balanceia entre os diversos (e difíceis de tratar) elementos. Com um ar de novidade em meio a tantas produções ambientadas nos Estados Unidos, o longo até mesmo nos diverte com uma piada sobre John Wick, uma clara referência ao estilo da produção.

Aqui, o inegável carisma de Dev Patel é capaz de, mesmo que por poucos momentos, nos distrair de um importante fato: Fúria Primitiva chega atrasado como blockbuster. Em um momento em que todos já elevaram das mais diversas maneiras a potência das brigas desenfreadas, o filme parece não se sustentar ao ponto de não se parecer com as incansáveis e repetitivas tentativas que temos visto nos últimos anos. A eficiente direção na construção de cenas, porém, é um fato a ser aplaudido.

Nem tudo são flores, e tudo bem. Fúria Primitivadisponível nos cinemas brasileiros a partir do dia 23 de maio de 2024, não entrega a tão sonhada sensação de ineditismo, mas, ainda, sim, é capaz de se sustentar como um bom conto de vingança. Com temas poucos explorados no gênero, peca em não se tornar mais marcante, mas deixa claro que as promessas de Dev Patel como um dos novos queridinhos da nova geração de Hollywood não são em vão.

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Dev Patel desvia dos clichês de Hollywood em <i>Fúria Primitiva</i>, mas não entrega o sonhado ineditismo

Dev Patel desvia dos clichês de Hollywood em Fúria Primitiva, mas não entrega o sonhado ineditismo

18/Jul/

Não é de hoje que o cinema de ação vem procurando se sustentar no ritmo frenético das cenas agressivas e, sobretudo, nas histórias de vingança. A cada nova produção do gênero, percebemos que tudo parece precisar ser mais rápido e violento, pecando na profundidade de suas tramas. É exatamente desse o quanto mais simples, melhor que Dev Patel tenta fugir ao realizar seu début como diretor.

Em entrevista ao site norte-americano Deadline Hollywood, o ator conhecido por seus papéis em Quem Quer Ser um Milionário? e Skins afirma que esse tipo de filme teria sido abusado pelo sistema. Nas palavras do britânico, seu desejo é dar ao gênero uma alma real, um trauma real, uma dor real, além de infundir um pouco de cultura nisso. Foi com esse olhar que Patel decidiu produzir, roteirizar, dirigir e atuar em Fúria Primitiva.

No entanto, ao embarcar no projeto que, inicialmente, sairia na Netflix, acabou enfrentando alguns embates. Apesar de ter sido gravado, pouco se falou do filme durante suas primeiras etapas de produção, marcadas pelo período da pandemia de Covid-19 e, posteriormente, pelas greves dos atores e roteiristas. Até que surgiu a notícia milagrosa: o produtor Jordan Peele, aclamado por suas produções de terror, como Corra!, Nós e Não! Não Olhe!, iria se envolver no projeto. Com isso, ao invés de sair no streaming, Fúria Primitiva passa a ter um lançamento nos cinemas.

Marcando uma virada interessante na carreira de Patel, o longa-metragem se ambienta em uma cidade fictícia da Índia. Nela, acompanhamos o drama do protagonista Kid, vivido pelo próprio Dev Patel. Caracterizado como um homem amargurado que ganha a vida em lutas clandestinas, Kid interpreta o personagem Monkey Man em suas brigas. Inspirado na lenda hindu de Hanuman, um ser místico com cabeça de macaco muito associado a virtudes como heroísmo e altruísmo, o ator e diretor é capaz de, logo de início, apresentar ao espectador algo que vai muito além de apenas um filme de ação.

Mesmo com a profissão de lutador, fica clara que esse não é exatamente seu plano de carreira. Kid têm o objetivo de se vingar daqueles que mataram sua mãe e incendiaram a vila em que vivia quando criança. Colocando sua revanche em prática, vemos Patel se infiltrar em uma boate comandada pela máfia local, onde seus alvos principais são o chefe de polícia Rana, interpretado por Sikandar Kher, e o líder espiritual Baba Shakti, na pele do ator Makrand Deshpande.

Se desenvolvendo em algo que beira aos esquemas dos clássicos jogos onde é preciso passar de etapa por etapa, onde mais chefões são introduzidos, combatidos e vencidos, o filme é dividido em dois grandes capítulos. Na medida que o jovem consegue o emprego em um exclusivo clube de elite para fazer o trabalho que ninguém quer, Kid convence a chefe Queenie, vivida por Ashwini Kalsekar, que é uma pessoa confiável. Conseguindo se infiltrar cada vez mais no meio, ainda faz amizade com outro funcionário, Alphonso, interpretado por Pitobash, que se torna um ótimo alívio cômico.

É precisando recalcular a rota de sua vingança que o protogonista recebe apoio espiritual de um grupo da comunidade religiosa Hijra, pessoas que adoram a Deusa Bahuchara Mata. Ali, reúne forças para terminar o que começou. Esse é o respiro do filme, um de seus bons acertos, onde os roteiristas preparam o terreno para a batalha final - outro ponto alto da trama.

Cumprindo a promessa de preencher um filme de pancadaria com críticas a injustiças sociais, corrupção política, fanatismo religioso, preconceito contra as minorias, e muito mais, Fúria Primitiva é capaz de surpreender o público com o quão bem se balanceia entre os diversos (e difíceis de tratar) elementos. Com um ar de novidade em meio a tantas produções ambientadas nos Estados Unidos, o longo até mesmo nos diverte com uma piada sobre John Wick, uma clara referência ao estilo da produção.

Aqui, o inegável carisma de Dev Patel é capaz de, mesmo que por poucos momentos, nos distrair de um importante fato: Fúria Primitiva chega atrasado como blockbuster. Em um momento em que todos já elevaram das mais diversas maneiras a potência das brigas desenfreadas, o filme parece não se sustentar ao ponto de não se parecer com as incansáveis e repetitivas tentativas que temos visto nos últimos anos. A eficiente direção na construção de cenas, porém, é um fato a ser aplaudido.

Nem tudo são flores, e tudo bem. Fúria Primitivadisponível nos cinemas brasileiros a partir do dia 23 de maio de 2024, não entrega a tão sonhada sensação de ineditismo, mas, ainda, sim, é capaz de se sustentar como um bom conto de vingança. Com temas poucos explorados no gênero, peca em não se tornar mais marcante, mas deixa claro que as promessas de Dev Patel como um dos novos queridinhos da nova geração de Hollywood não são em vão.